PFES - 4
Quarto texto.
“Ninguém fez qualquer pergunta depois do que se passou. Ninguém perguntou como foi, nem como estava. O meu pai, a Cândida, o Pires, nada. Talvez não o tenham feito por medo, talvez por respeito, não sei. Nem a Armanda fez perguntas, anos mais tarde, mas também não precisou: contei-lhe tudo, ou quase tudo sobre o que se passou naquele dia. E contei-lhe como me senti, ou como me lembro de sentir: triste, desconfortável, mas sobretudo envergonhado por ter vivido aquele dia daquela maneira. Nunca mais seria capaz de o esquecer.
A Armanda só me perguntou – admitiu que talvez fosse estúpido, mas que ela tinha curiosidade em saber, porque era comum em muitas pessoas que tinham perdido os pais – se eu sentia algum tipo de culpa ou remorso pelo sucedido. E eu dizia que não, que não sentia culpa alguma. E para ser sincero, nem sentia dor. A sensação mais forte que tinha, insistia, era de vergonha, daquela que queima, que nos dá raiva de nós próprios. Era uma sensação de ridículo atroz, que me dava pequenos ataques de raiva com diferentes graus de violência.
Em geral, conseguia controlar-me me em frente aos outros e parecer funcional, presente, e minimamente responsivo, mesmo que combalido. Aguentava o que tinha de sofrer por dentro. Claro que de noite, no silêncio da minha solidão, acabava por rebentar. Deitava-me na cama, enrolado nos lençóis, a chorar: agarrava a almofada com tanta força que a rasgava. Pensava no filme, na casa de banho, na sala de estar e queria tirar esse momento de mim, apagá-lo sem piedade, mas ele não parava de voltar, cada vez mais expansivo e total…”
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O resto do texto pode ser lido aqui. Bom domingo.


