O primeiro A
Parabéns
O primeiro A
Passou-se um ano. Disseram-me que o tempo, agora, é outro. Senti isso, e ainda sinto. Se calhar, nunca mais vou deixar de sentir que tudo, agora, conta de outra forma.
Mas estava a dizer que se passou um ano. Sou capaz de olhar para trás e reconstruí-lo quase ao dia. O momento inicial, “verdadeiro e limpo”, é uma fotografia, porque tal como uma bomba levou tudo à sua frente. O que interessa – o que fica – é o que veio a seguir ao que se passou às sete e trinta e quatro, quando um borreguinho com quase quatro quilos saiu da barriga da Carolina, num bloco sem ar condicionado, ainda à espera de que a iluminação voltasse à Península Ibérica.
Passou-se um ano desse momento. Há coisas que penso sobre os meses passados em que já é difícil situar-me, como nas noites em que ele ainda acordava para comer, ou os dias em que ele ficava sentado na espreguiçadeira a olhar para nós. Há outros que guardo como se tivessem sido ontem: os passeios, sobretudo. Fazia sol depois do nascimento, e lá íamos nós com ele no carrinho por aí. Deram-me um marsúpio, mas nunca o utilizei muito, preferindo carregá-lo nos braços. Fiz isso tanto que ele já põe o braço atrás do meu pescoço, como se fosse um apoio, ou um controlo, de onde pode observar o mundo que o rodeia.
Lembro-me bem do primeiro dia de praia, da primeira sopa, e de todos os acordares matinais, com ele à espera que olhássemos para ele, sorrindo quando o fazíamos. Lembro-me de ele dizer “olá” pela primeira vez, e de bater palmas, e de ficar a olhar para as folhas das árvores do Minho, embalado por esse mistério que é o vento.
Lembro-me bem de muita coisa, de quase tudo para ser sincero. Passou-se um ano. Ele continua a ir à estante tirar livros, com uma afeição particular pela intersecção que existe entre os livros de filosofia e de cinema. Livros de Bénard de Costa com Marylin Monroe na capa são espalhados por cima do Capital, enquanto volumes pequenos sobre Visconti se deitam em cima de Ortega y Gasset. Depois volta para o centro da sala, e daí parte para outra aventura: para a janela, para o corredor, para a mesa, para o sofá.
Lembro-me do dia em que me apercebi que ele gostava da versão do MJ Lenderman do Dancing in the Club. Lá estava ele, na Braamcamp, a abanar os pés no carro. Fez-me ver que letras de canções é que sei mesmo de cor, quando ao adormecê-lo me pus a cantar o que me saía. Acalma-se muito com o I Will dos Beatles, versão semi-adulterada, e com o Isto É Folclore do Tiago Guillul. Também hoje Mountain Goats. Na manifestação do 25 de abril começou a bater palmas quando ouviu o Venham Mais Cinco.
É um miúdo doce, e feliz. A mãe diz que ele é mimoso, e quando está para isso, é muito mimoso. Enrosca-se ao nosso colo, pousa a cabeça no peito, abraça-se, gosta de receber beijinhos. Quando se ri, ri-se muito, à gargalhada – suspira no fim, alegre como tudo. Gosta de brincar, gosta de se esconder, e de descobrir. Não passa sem que lhe leiam uma história à noite, tendo já as suas preferidas.
O tempo é uma coisa gira. No outro dia estava a descer a rua, de noite, com ele ao colo. Ao entrar em casa, pensei que vai haver um dia, e espero que seja daqui a muito tempo ainda, em que já não o vou pegar ao colo, e o meu peito encheu-se de tristeza nesse momento. Chamo-lhe o meu melhor amigo. Derreto-me quando ele se ri, contente, com as coisas que vê ou que faz.
Passou-se um ano, um ano cheio, o primeiro de muitos, e eu penso muito em como era a vida antes dele aparecer. Não era tão boa como é agora, acreditem. Lá fora faz sol, e o ar já tem um leve cheiro a verão. Que seja assim para sempre. Parabéns, Toninho.


Parabéns ao pequeno (grande) António! 🙂