Se há coisa de que o António gosta, é de ver pessoas. A praia, nesse sentido, é um festim. Também gosta muito de pão e de pássaros (pê, pê, pê). E de livros. Penso no meu livro, na história. Na história, o personagem está num quarto de hotel numa "cidade europeia", como ele diz, que na realidade é Madrid, como ele tenta ir dizendo, de forma indireta, a Ana, que é a pessoa para quem ele está a escrever uma mensagem. A mensagem nasce de um espaço aberto que ficou entre eles (ou que ficou pelo menos entre ele e ela, como ele lhe diz), antigos amantes lisboetas, separados há anos. E nasce desse sentimento de pertença e de conforto de algo que foi um dia a coisa mais especial do mundo, como na rua de sentido único de Walter Benjamim. A razão de ser da mensagem, claro, é uma morte, uma morte que causa o que uma morte normalmente causa, que é um vazio, mas um vazio especial, porque é o vazio mais sonoro que há. Acontece ao personagem o que James Murphy cantou, de forma seminal: nada te pode preparar para isto / para a voz / do outro lado. Como escrevo na história, é como se a dor viesse toda para fora, em vez de vir para dentro. E ele conta a Ana o que a morte lhe fez, a sua aventura pessoal e desinteressante de dor, de ridículo, de vergonha, de maldade, de falta de jeito, que vai de Lisboa até Altura, de Seattle até Madrid, e que cobre literatura, família, álcool, praia e sonhos. E romance, ou a memória de. Depois Ana... Depois nada, vocês hão de ler, ou não, sairá numa editora independente no final do ano, ou no início do próximo, dependendo da vontade e capacidade do autor de terminar o que começou. Chama-se, mas isso vocês já sabem, Pai, Filho e Espírito Santo. O terceiro capítulo chama-se Hotel Roma. É, nos termos de Bolaño, uma novela medíocre, e está tudo bem. Como estava o mar, hoje, um mimo para se mergulhar.
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