Agosto
Caro diário: a água está boa. Tem estado sempre boa, nos últimos dias. Quero escrever, porque escrever é a minha forma de existir, de ficar, de garantir que as coisas não morrem. Que coisas? A água, por exemplo. O calor, a areia da praia. As sardas da Carolina, ou o aeroporto-condomínio do sonho que tive, ontem à noite. Talvez se escrever, o restaurante Vila Lisa nunca acabe. Talvez a minha mãe nunca morra. Talvez as crianças que montam castelos de areia junto às ondas do mar nunca cresçam nem aprendam o que são a miséria e o desespero. Talvez chegue a paz para a Ucrânia e a medalha de ouro para Rochele Nunes. Talvez Trump perca as eleições, os juros da prestação da casa desçam, e se consiga reduzir o aquecimento global. Ou não, claro que não. Tudo passa, tudo passa, só não passa - o quê? Quero escrever sobre isso, o por-quê e o-que-é, e o que foi, e o que será, na minha cabeça e nos meus sonhos, nos meus dedos e nas minhas lágrimas, o sentido possível de uma rua que se abre junto à janela de minha casa, num dia de Verão. Em agosto estou bem em todo o lado: no mar, no ar, no verde, na Luciano Cordeiro, a arder nas páginas que preencho e nos passos que passeio enquanto as horas passam, passam e passam, nunca deixando de passar. Então, boas tardes, gentes do mundo! Bem-vindos à minha vida, ao meu testemunho e à minha vertigem de ser, profundamente incapaz e feliz, nesta hora que Deus me concedeu com o intuito de soltar sobre vós o fôlego que tenho (minha única posse verdadeira), fumo de uma locomotiva interior muito inquieta e em constante deslumbramento com o presente que nos cobre. Neste momento: agosto.


